É ano novo.
As ruas repetem fogos, as pessoas repetem promessas
como se o tempo obedecesse ao relógio.
Eu observo.
O calendário muda de roupa, mas os desejos continuam usando
o mesmo tecido gasto.
Quero realizar, mas o querer vem velho,
aprendeu a desconfiar dos planos.
Quero conquistar, mas a conquista já sabe
quantas vezes foi adiada.
O ano nasce, mas dentro de mim o tempo anda devagar.
Crescer ainda parece coisa do ano passado, daquele passado que insiste
em atravessar os dias novos.
Chamam isso de recomeço.
Eu chamo de espera.
É ano novo,
e eu sigo velho —
não de idade, mas de expectativas cansadas
e sonhos que aprenderam a sentar.
Não espero milagres.
Espero coragem.
Que o novo não chegue em datas, mas em gestos pequenos, em escolhas que não façam barulho.
Talvez o novo não aconteça de repente.
Talvez ele não anuncie chegada.
Talvez comece discreto, quando eu parar de esperar e finalmente andar.
Até lá,
é ano novo.
E eu sigo aqui, velho o bastante para duvidar, mas atento o suficiente
para reconhecer o dia
em que o novo, sem avisar, acontecer.

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